domingo, junho 10, 2012

Entrevista com pedagoga Adriana Friedmann - Brincar é preciso



Brincar é preciso

A pedagoga Adriana Friedmann*, autora de diversos livros, defende a importância da brincadeira para as crianças
Por Larissa Linder

Quando se fala em brincar, normalmente o senso-comum nos leva a pensar que é coisa de criança, ou que é apenas um passatempo. Há também quem veja as brincadeiras como infantilidade fora de hora, especialmente no ambiente escolar. Alguns professores têm dificuldade em lidar com as brincadeiras livres, criadas pelas próprias crianças, e as usam apenas como uma ferramenta de ensino de conteúdos. Mas brincar deve ir além disso. As brincadeiras têm enorme importância no desenvolvimento das crianças. E, aliás, não apenas das crianças: devem fazer parte de todas as fases da vida até a velhice, respeitando as capacidades e as linguagens de cada idade. Para tirar dúvidas sobre o brincar e esclarecer a sua importância, o Guia Prático entrevistou Adriana Friedmann, doutoranda em Antropologia pela PUC, mestre em Metodologia do Ensino pela UNICAMP, pedagoga pela USP e autora de vários livros sobre o tema. Confira

Qual a importância do brincar na infância? E em outras idades?
O brincar é uma linguagem essencial na vida das crianças, e elas precisam vivê-lo para poder se expressar e apreender o mundo, as pessoas e os objetos à sua volta, assim como experimentar a vida, seus valores e as relações. Para o adolescente, o brincar é essencial para dar vazão à sua fantasia, para experimentar diversas habilidades, apreender valores e regras e para relacionar-se com os outros, ou introjetar diversos conceitos. O adulto precisa do lúdico para ter canais expressivos. E este lúdico passa pelo movimento, pelas diversas expressões plásticas, pela música, pelos hobbies, pelas habilidades manuais e pela escrita criativa, entre outras linguagens.
"O professor precisa vivenciar as brincadeiras para, na sequência, refletir a respeito dos seus potenciais e, assim, conscientizar-se da importância de devolvê-las à vida das crianças e ao seu próprio trabalho." Adriana Friedmann

Como o professor pode lidar com as brincadeiras na escola?
O professor recebe uma formação 'pedagógica' e é, em geral, cobrado para seguir um currículo que fica limitado a conhecimentos que passam mais pelo acúmulo de informações em todas as áreas, deixando de lado o corpo e outras formas de expressão não verbais. Nesse sentido, ele vê o brincar como um tempo determinado de ócio (não trabalho), ou que só pode acontecer nos espaços do recreio ou do tempo livre. Ele muitas vezes desconhece o potencial educacional das brincadeiras e, por isso mesmo, nem imagina a possibilidade de trazê-las para o seu cotidiano para dar oportunidade para as crianças crescerem, desenvolverem-se e aprenderem por meio delas. O professor precisa vivenciar as brincadeiras para, na sequência, refletir a respeito dos seus potenciais e, assim, conscientizar-se da importância de devolvê-las à vida das crianças e ao seu próprio trabalho.

Qual o erro mais comum entre os professores ao tentarem estimular a brincadeira nos alunos?
Em geral, eles acabam utilizando as brincadeiras como instrumentos ou métodos pedagógicos e, assim, o prazer, que é a marca essencial de qualquer atividade lúdica, acaba se perdendo. Impor brincadeiras como métodos pedagógicos desencanta os alunos.


Há uma maneira específica para estimular os alunos a brincar?
A única maneira é tentar conhecer quais as brincadeiras de que os alunos mais gostam, aprendê-las e brincar junto com eles para, assim, estabelecer um caminho de diálogo. Pode-se, dessa maneira, estimulálos a recriar novas versões. O respeito pelo repertório que eles trazem deve ser um traço do professor, no sentido de dar verdadeiro valor a este patrimônio.

"Da infância até a terceira idade, a brincadeira faz parte da vida de todo ser humano"


Como o professor pode se preparar?
Há inúmeros cursos de formação, muitos livros com ideias, mas o essencial é o professor brincar e vivenciar essas brincadeiras para poder compreender o que esses brincares provocam internamente e seus potenciais latentes.

Quais as diferenças entre brincar e jogar? 
Brincar implica mais liberdade, espontaneidade, regras mais flexíveis e mudanças de um grupo a outro. Jogar tem a ver com respeito a regras externas ao grupo - universais - e se relaciona, principalmente, com jogos de quadra ou de tabuleiro.

Existe uma idade certa para começar e para parar de estimular as brincadeiras? 
Desde o bebê que nasce até a terceira idade, a brincadeira faz parte da vida de todo ser humano. O importante é que as brincadeiras sejam adequadas a cada idade para não infantilizálas ou dificultá-las demais.

Como os pais podem estimular o brincar com as crianças? 
Brincando junto, oferecendo tempo e espaços seguros, muito mais do que comprando grande quantidade de brinquedos. Proporcionando a oportunidade de troca com outras crianças, ou com adolescentes ou adultos.

As crianças hoje brincam menos do que as gerações anteriores? 
Não. As crianças brincam de forma diferente e, mesmo com menos tempo ou falta de espaços adequados, fazem de tudo para brincar em qualquer faixa etária e em qualquer região.

Há culturas onde as crianças brincam mais? 
Em todas as culturas as crianças brincam. Talvez nas comunidades indígenas se dê mais valor ao tempo livre, à experimentação e à liberdade, aspectos que oportunizam mais o brincar. Mas, mesmo as crianças que moram em apartamentos, cortiços ou favelas, brincam.
*Adriana Friedmann é doutoranda em Antropologia pela PUC, mestre em Metodologia do Ensino pela UNICAMP e pedagoga pela USP. Coordenadora e docente do curso de pós-graduação Educação Lúdica em Contextos Escolares, Não Formais e Corporativos no Instituto Superior de Educação Vera Cruz. Consultora da Fundação Maria Cecília Souto Vidigal, com programas para crianças de 0 a 3 anos. Cofundadora e membro do Conselho Consultivo da Aliança pela Infância no Brasil. Docente e consultora na formação de educadores e na implantação de espaços lúdicos em inúmeras instituições.
Autora dos livros: 
"O Brincar no Cotidiano da Criança" (Editora Moderna, 2006)
"O Desenvolvimento da Criança Através do Brincar" (Editora Moderna, 2006)
"O Universo Simbólico da Criança: Olhares Sensíveis para a Infância" (Editora Vozes, 2005)
"Dinâmicas Criativas- Um Caminho para a Transformação de Grupos" (Editora Vozes, 2004)
"A Arte de Brincar" (Editora Vozes, 1992)
"Brincar, Crescer e Aprender: o Resgate do Jogo Infantil" (Editora Moderna, 1992)
Coautora dos livros: 
"O Direito de Brincar - A Brinquedoteca" (Editora Scritta, 1992)
"Caminhos para uma Aliança pela Infância" (Aliança pela Infância, 2003)

Outras entrevistas

VIDEOS SOBRE A IMPORTANCIA DO BRINCAR PARA APRENDER




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